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A AQUISIÇÃO DO CENTAURO II PELO EXÉRCITO BRASILEIRO: ESTAMOS FAZENDO A COISA CERTA?

A AQUISIÇÃO DO CENTAURO II PELO EXÉRCITO BRASILEIRO: ESTAMOS FAZENDO A COISA CERTA?
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1. INTRODUÇÃO

A decisão do Exército Brasileiro de adquirir 98 Viaturas Blindadas de Combate de Cavalaria Média Sobre Rodas (VBC Cav – MSR 8×8) Centauro II, do consórcio italiano Iveco–Oto Melara (CIO), por aproximadamente €900 milhões, constitui um dos maiores investimentos terrestres do país na última década (HIGUERA, 2022; UOL, 2022).

Mais do que um contrato de defesa, a aquisição cristaliza um dilema estratégico: o Exército está comprando um sistema que se pretende referência na sua classe, mas cuja adoção internacional é restrita e cujo conceito vem sendo abandonado pelas principais potências ocidentais.

O presente ensaio tem por objetivo analisar criticamente essa decisão a partir de quatro eixos:

(i) O Centauro II é, de fato, uma referência na classe de blindados sobre rodas?;

(ii) A aquisição desse modelo de VBC MSR está alinhada às tendências da guerra contemporânea?;

(iii) A dotação de unidades de Exército Brasileiro com o Centauro II responde a uma ameaça concreta do entorno estratégico brasileiro?; e

(iv) O custo-benefício da aquisição é favorável?

 Ao final, procura-se concluir se o Exército Brasileiro incorre em erro estratégico ao não avaliar adequadamente esses fatores.

1. DESENVOLVIMENTO

2.1 O Centauro II é uma referência em sua classe?

Alguns avaliam que o Centauro II se constitui um novo padrão de referência para os VBC Sobre Rodas, com a justificativa de ser o único blindado sobre rodas em produção no Ocidente armado com canhão liso de 120 mm.

Entretanto, esse raciocínio é tautológico: se o veículo é único na sua configuração, não há concorrência que estabeleça o que constitui referência. Referência, em análise de defesa, mede-se por adoção e emprego, não por singularidade técnica.

Para dimensionar a classe, é preciso delimitar minimamente as demais viaturas blindadas similares no âmbito dos países ocidentais que foram operadas recentemente, ou seja, os veículos de cavalaria sobre rodas armados com canhão (105/120 mm). Destes, selecionamos os principais:

- o Centauro B1 italiano;

- o AMX-10 RC francês;

- Stryker MGS norte-americano; e

- o Type 16 MCV japonês.

O Jaguar (EBRC) francês, que substituiu p AMX-10 francês não integraria esta classe, pois utiliza uma torre com canhão automático de 40 mm, combinado a mísseis anticarro Akeron MP.

Como referência dessa classe de blindados, considerando o volume de adoção, teria sido o Centauro B1: cerca de 490 unidades produzidas, sendo 400 para o próprio Exército Italiano (produção encerrada em 2006), 84 para a Espanha, 141 unidades excedentes italianas transferidas à Jordânia e 9 para Omã, além do emprego recente na Ucrânia (TANKS ENCYCLOPEDIA, 2020; ARMY RECOGNITION, 2025; OVERTDEFENSE, 2025).

O segundo em volume foi o AMX-10 RC francês, com 464 unidades produzidas, empregado pela França, Marrocos e Catar (GLOBALMILITARY, [s.d.]; ARMY TECHNOLOGY, 2020). O Stryker MGS, ao contrário do que por vezes se supõe, não foi o mais numeroso da classe: apenas 142 unidades foram aceitas pelo Exército dos Estados Unidos — número inferior ao do Centauro B1 e do AMX-10 RC (AFV DATABASE, [s.d.]). O Type 16 MCV japonês, por sua vez, permanece em serviço com cerca de 142 unidades (GLOBALMILITARY, [s.d.]).

O Centauro II, contudo, não herdou a escala do antecessor: conta apenas com dois clientes conhecidos: a própria Itália (com até 150 unidades) e o Brasil (que com o contrato assinado poderia adquiri até 98 unidades). Portanto, se observa que o único cliente será o Brasil, pois a Itália é a própria fabricante (LEONARDO, 2024; REUTERS, 2022). O Centauro B1, por outro lado, alcançou cinco operadores e cerca de 490 unidades.

O Centauro II procurou manter o desenho conceitual, mas com um canhão mais potente, mas ainda não atingiu escala de adoção. Portanto, observa-se que o Centauro II não pode ser tratado como referência por adoção: ele é numericamente marginal na própria classe que o antecessor dominou. Sua singularidade técnica e suposta vantagem operacional, o canhão de 120 mm, constitui apenas um atributo de nicho, não um critério de referência.

A tabela a seguir consolida os números da classe:

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Tabela 1 – Veículos da Classe de VBC Cav MSR com canhão 105mm ou superior

O caso da França deve ser levado em consideração: o Jaguar substituiu o AMX-10 RC, o ERC-90 Sagaie e o VAB HOT, com as primeiras entregas em 2021/2022 (KNDS, [s.d.]; ARMY RECOGNITION, [s.d.]; ESUT, 2022).

2.2 A tendência internacional: abandono do conceito?

O dado mais decisivo, portanto, não é quem compra o Centauro II, mas quem deixou de comprar essa classe de VBC Cav MSR. Os Estados Unidos anunciaram, em 12 de maio de 2021, a desativação de todos os Stryker MGS até o fim do ano fiscal de 2022, após análise abrangente que apontou obsolescência e problemas sistêmicos no canhão de 105 mm e no carregador automático (UNITED STATES ARMY, 2021). A substituição foi por uma capacidade distribuída, composta por canhão de 30 mm e mísseis anticarro Javelin (ARMY TECHNOLOGY, 2021).

A França seguiu caminho semelhante. O Jaguar (EBRC), do programa SCORPION, foi concebido para substituir o AMX-10 RC (105 mm), o ERC-90 Sagaie e o VAB HOT, trocando o canhão de grande calibre por um de 40 mm combinado a mísseis guiados (ARQUUS, [s.d.]; DEFENSEMAGAZINE, 2025). A substituição gradual teve início em 2022, e o Exército francês já recebeu dezenas de Jaguar (THALES, 2025).

Os dois maiores operadores ocidentais de VBC dessa classe abandonaram, portanto, o conceito em favor de plataformas multimissão. A referência atual da classe de blindados 8×8 é a família multimissão — Patria AMV, com mais de 2.000 unidades entregues e cerca de dez países operadores, incluindo Finlândia, Polônia, Suécia, Noruega, Eslováquia, Croácia, Eslovênia e Japão (GLOBALSECURITY, 2021; PATRIA, 2026), solução que prioriza modularidade, proteção e capacidade anticarro por mísseis, e não um canhão de tanque.

Nesse contexto, o Centauro II configura-se como exceção de nicho: um veículo que preserva um conceito que os principais exércitos estão abandonando. Isso não o torna referência: torna-o contracorrente.

2.3 Tendências da guerra atual

O ponto que mais chama a atenção na decisão do Exército Brasileiro em adquirir o Centauro II é um eventual descompasso com a guerra real do século XXI. As guerras da Ucrânia e de Israel–Hezbollah demonstraram que munições ociosas e drones FPV de baixo custo, avaliados em US$ 300 a US$ 400 por unidade, estão destruindo blindados de alto valor (KYIV POST, 2024; YNETNEWS, 2026).

O Hezbollah, aprendendo com a Ucrânia, tornou o drone de fibra óptica sua arma primária contra Israel (BBC NEWS, 2026). Um veículo israelense de aproximadamente US$ 9,6 milhões que pode ser neutralizado por um drone de algumas centenas de dólares constitui o cerne do problema de custo-benefício.

Ademais, a sobrevivência de blindados na guerra moderna depende crescentemente de sistemas de proteção ativa (APS), guerra eletrônica, cúpulas anti-drone e blindagem aditiva, e não do poder de fogo. O Centauro II, por ser relativamente leve e rápido, apresenta limites de blindagem que o tornam vulnerável a drones e mísseis guiados, a menos que receba pacotes adicionais de proteção, que elevam peso e custo. Soma-se a isso o fato de o sistema não possuir histórico operacional real contra adversários modernos: o Brasil assume o risco de ser o primeiro cliente de exportação de um veículo não testado em combate (ZONA MILITAR, 2024).

2.4 Ameaças do entorno estratégico brasileiro

A justificativa oficial para a aquisição é a modernização da cavalaria mecanizada e a substituição do envelhecido EE-9 Cascavel (6×6, canhão de 90 mm), no fim da vida útil. A ameaça nominal é a de forças blindadas convencionais de um adversário regional hipotético, negando ao oponente o uso de tanques e blindados em um conflito interestatal.

O ponto fraco precisa ser dito com honestidade: não há, no entorno estratégico imediato do Brasil, uma ameaça concreta de massas blindadas que justifique, por si só, um caça-tanques de 120 mm. Nenhum vizinho, nem mesmo a Venezuela, opera uma força blindada capaz de ameaçar o território brasileiro de forma decisiva. O argumento é, portanto, de capacidade e dissuasão genérica, ou seja, apenas manter a cavalaria relevante e interoperável com padrões OTAN, mais do que resposta a uma ameaça identificada. Mesmo a ideia de aquisição de um padrão OTAN cai por terra, na medida em que a Itália é a única a adquirir essa classe na aliança.

Isso não torna a compra absurda, pois exércitos se preparam para cenários futuros, mas enfraquece a urgência, pois, sem ameaça blindada iminente, a pressa em adquirir um sistema contracorrente e não testado se torna menos justificável e defensável.

2.5 Custo-benefício

O contrato brasileiro prevê 98 viaturas por aproximadamente €900 milhões, cerca de R$ 5,07 bilhões ou US$ 946 milhões na época da assinatura, em 2022 (REUTERS, 2022; JORNAL DO COMÉRCIO, 2022).

Isso resulta em um custo unitário médio de cerca de €9,2 milhões por viatura, aproximadamente R$ 51,7 milhões ou US$ 9,6 milhões. O programa previa originalmente até 221 unidades, o que reduziria o custo marginal por unidade em lotes futuros, mas o contrato atual é de 98.

O custo-benefício se torna questionável se analisado por diferentes três ângulos: a ameaça está desalinhada, pois o veículo foi desenhado para a guerra simétrica de tanques e não para a guerra assimétrica de drones; o conceito é contracorrente, pois o Brasil adquire uma ideia que EUA e França abandonaram; e o sistema não possui validação em combate, a um custo elevado por unidade, para um papel que a era dos drones está redefinindo.

1. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pergunta central era: o Exército Brasileiro estaria cometendo um erro estratégico ao adquirir o Centauro II? O presente ensaio aponta que a resposta é parcialmente afirmativa, e o erro não está em comprar, mas em como e para quê.

O que sustenta a compra é a necessidade imediata de substituir o EE-9 Cascavel e a ausência de alternativa ocidental pronta na mesma classe, com combinação equivalente de mobilidade e poder de fogo. A modernização da cavalaria é legítima, e a interoperabilidade com padrões OTAN tem valor estratégico real.

O que fragiliza a decisão são três descompassos acumulados. O primeiro é o descompasso com a guerra atual: o veículo foi concebido para a guerra simétrica de tanques da Guerra Fria, e não para a guerra de drones que define os conflitos contemporâneos. O segundo é o descompasso com a referência internacional: o Exército adquire um conceito que as principais potências ocidentais abandonaram. Como vimos, os Estados Unidos desativaram o Stryker MGS em 2022 e a França substituiu o AMX-10 RC pelo Jaguar. Ou seja, ambos apostaram em soluções de sistemas baseados em plataformas multimissão com mísseis e proteção ativa. O terceiro é o descompasso de custo-benefício: cerca de €9,2 milhões por unidade para dissuadir uma ameaça pouco identificada no entorno estratégico.

O achado mais relevante desta análise é que o conceito de "caça-tanques sobre rodas baseados em canhões" se mostra como uma aposta italiana. O Stryker MGS e o AMX-10 RC, os mais empregado da classe no Ocidente foram recentemente aposentados. O Centauro II, com dois clientes, herda essa marginalidade. Isso não invalida a necessidade de modernizar a cavalaria, mas exige reconhecer que o Brasil está apostando em um nicho que o mundo está abandonando.

Podemos concluir com as seguintes observações: a compra é justificável na necessidade, questionável na concepção e arriscada na execução. O erro estratégico não é a aquisição em si, mas a ênfase do programa: priorizar o canhão de 120 mm sobre a proteção ativa e a defesa anti-drone, em um momento em que a própria classe está em redefinição. O Exército Brasileiro estaria mais alinhado à guerra real se o programa priorizasse, tanto quanto o poder de fogo, os sistemas de proteção ativa, a guerra eletrônica e a capacidade anti-drone, e principalmente, se o investimento de aproximadamente R$ 5 bilhões fosse avaliado contra alternativas multimissão mais adequadas à ameaça real. Em síntese, trata-se de um veículo que olha para o passado da guerra enquanto o campo de batalha está em plena transformação.

REFERÊNCIAS

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