A engenharia demográfica: aliyah, limpeza étnica e o sepultamento da solução de dois Estados

A engenharia demográfica: aliyah, limpeza étnica e o sepultamento da solução de dois Estados
Imagem gerada por IA

Introdução

Entre 2022 e 2026, dois movimentos populacionais de sentidos opostos ocorreram sob o mesmo guarda-chuva estratégico. De um lado, dezenas de milhares de judeus deixaram a Ucrânia em guerra e foram absorvidos por Israel, muitos deles passando pela Moldávia, que se tornou rota de fuga, hub de trânsito e, depois, sede da primeira embaixada israelense de sua história. De outro, ministros israelenses em exercício apresentaram planos para remover a esmagadora maioria dos palestinos de Gaza, enquanto os assentamentos na Cisjordânia continuam a fragmentar o território palestino, em um processo que envolve remoção coercitiva de população documentada diariamente por organizações internacionais. O problema que este ensaio examina não é humanitário, e é exatamente por isso que ele é incômodo: os dois movimentos não são fenômenos paralelos. São as duas faces de uma mesma engenharia demográfica, cujo objetivo declarado pelos atores que a conduzem é a implementação, na prática, de um Estado único entre o rio e o mar, com maioria judaica permanente. A pergunta central, que estrutura toda a análise, é se esse conjunto de ações configura uma estratégia de limpeza étnica destinada a enterrar de vez qualquer possibilidade de solução de dois Estados.

A máquina de absorção: a aliyah e a rota da Moldávia

Os dados são verificáveis e multiplamente confirmados. Dois dias após a invasão russa da Ucrânia, em 26 de fevereiro de 2022, a Agência Judaica havia aberto seis estações de processamento de aliyah nas fronteiras ucranianas, incluindo Polônia, Moldávia, Romênia e Hungria. A Moldávia, por ser fronteiriça com Odesa e o sul da Ucrânia, tornou-se ponto de entrada crítico para quem fugia da região mais exposta ao avanço russo. Em Chișinău, a sinagoga Agudath Israel foi convertida em centro de trânsito, com alimentação, moradia temporária e assistência médica, coordenada pela comunidade judaica local e pelo JDC, o American Jewish Joint Distribution Committee. A Agência Judaica e a International Fellowship of Christians and Jews montaram operações com voos charters de Chișinău para Tel Aviv, e o primeiro voo partiu em 6 de março de 2022, dez dias após o início da invasão.

Os números registram a escala do movimento. Até setembro de 2022, 13.422 novos imigrantes, os olim, chegaram a Israel vindos da Ucrânia; somando Rússia e Belarus, foram mais de 40.000 em sete meses. A linha de emergência recebeu 130.000 ligações desde o início da guerra, e mais de 2.000 ucranianos já haviam sido levados a Israel até 7 de março de 2022. O programa Aliyah Express foi lançado em março de 2022 para acelerar a imigração. O fluxo não se encerrou com o primeiro inverno do conflito: 22.522 judeus imigraram para Israel em 2025, e mais de 100.000 novos imigrantes chegaram ao país desde o início de 2022. A vida judaica na Moldávia se sustenta hoje entre descendentes dos que fugiram e novos refugiados ucranianos, com o cemitério judeu de Chișinău preservado como marco, e o JDC mantém operações ativas no país. Em abril de 2025, trinta anos após o estabelecimento das relações bilaterais, Israel inaugurou sua embaixada em Chișinău, e em julho de 2025 o ministro das Relações Exteriores, Gideon Sa’ar, cujo avô paterno nasceu na Moldávia, visitou o país.

A leitura humanitária desse quadro é real: cada refugiado que chega a Israel recebe acolhimento concreto. Mas a leitura estratégica pergunta o que esse fluxo significa para o equilíbrio demográfico do território que Israel controla de fato, de Gaza ao rio Jordão. A resposta é direta: cada olim que desembarca em Tel Aviv é um voto demográfico a favor da manutenção de uma maioria judaica que, sem imigração contínua, estaria sob pressão estrutural da taxa de natalidade palestina. A aliyah não é um programa filantrópico. É a política de Estado mais antiga e mais institucionalizada de Israel, desenhada exatamente para garantir que o Estado judeu tenha judeus em número suficiente para justificar sua própria definição.

A guerra na Ucrânia, do ponto de vista israelense, foi também uma oportunidade demográfica: cada judeu ucraniano que escolhe Israel em vez da Europa ou das Américas fortalece o projeto.

A outra ponta da equação: Gaza e a saída dos palestinos

No mesmo período em que Israel absorve dezenas de milhares de judeus, a outra ponta da equação demográfica opera em sentido inverso. Em 3 de setembro de 2026, o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, líder do partido de extrema direita Jewish Power, apresentou o plano “Disengagement 710” como peça central de sua campanha para as eleições de 27 de outubro. O plano propõe facilitar a saída de cerca de 1,86 milhão de palestinos de Gaza em sete anos, com aproximadamente 250.000 partindo no primeiro ano e 1,11 milhão em três anos. Com a população de Gaza estimada em cerca de 2,1 milhões, o plano removeria a esmagadora maioria dos palestinos do território. O documento de 20 páginas prevê um ministério dedicado, negociações com países de destino, pacotes de assistência com documentos de viagem, transporte, moradia, treinamento profissional e apoio financeiro de até 24 meses, com investimento inicial estimado em cerca de 10 bilhões de shekels, aproximadamente $3,3 bilhões, podendo chegar a 50 bilhões de shekels, cerca de $16,6 bilhões. Os países citados como potenciais destinos incluem Turquia, Etiópia, República Democrática do Congo e nações árabes não especificadas. Nenhum confirmou publicamente acordo na escala proposta.

Ben-Gvir insiste que o plano é voluntário, e o descreveu como “uma oportunidade histórica para trazer uma solução histórica”. Os críticos apontam que, com Gaza em ruínas, com deslocamento em massa, acesso humanitário restrito e insegurança contínua, é impossível considerar a saída genuinamente voluntária. O ministro da Defesa, Israel Katz, foi além e afirmou que Israel está preparado para facilitar a partida de palestinos por mar, ar e outros meios, uma vez que os Estados Unidos aprovem o plano e os países de destino sejam garantidos, declarando que não pode haver solução duradoura para Gaza sem a emigração palestina. Katz e Ben-Gvir não são vozes marginais. São ministros em exercício do governo Netanyahu, e seus planos ressoam uma ideia que Donald Trump já havia lançado em fevereiro de 2025, ao propor a realocação dos palestinos de Gaza durante a reconstrução do território como uma “Riviera do Oriente Médio”. O chefe do Conselho de Segurança Nacional israelense, Shmuel Ben Ezra, convocou em junho reunião de urgência sobre “incentivar a emigração voluntária” de palestinos de Gaza, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, já defendeu políticas de incentivo à emigração palestina. A ideia não está na margem do governo; está dentro dele.

O Departamento de Estado americano afirmou que não apoia “qualquer plano ou proposta de deslocamento forçado, expulsão ou transferência obrigatória da população de Gaza”, mas evitou condenar diretamente Katz ou Ben-Gvir. Egito se opõe firmemente à saída de palestinos por seu território, governos árabes rejeitam qualquer mudança demográfica permanente, e organizações de direitos humanos e juristas argumentam que a “voluntariedade” é uma ficção quando a alternativa é permanecer em um território destruído e sitiado.

A Cisjordânia: assentamentos e remoção coercitiva

A terceira peça do tabuleiro é a Cisjordânia. A criação e a expansão dos assentamentos israelenses nessa região são acompanhadas, de forma documentada e cotidiana, por demolições de casas, despejos forçados, confisco de terras e violência de colonos contra comunidades palestinas. O Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA) registra, em seus relatórios periódicos sobre a Cisjordânia, dezenas de estruturas demolidas e centenas de palestinos deslocados a cada ciclo de atualização: em um único relatório, 50 estruturas demolidas em 14 vilarejos da Área C e em quatro áreas de Jerusalém Oriental, com 94 palestinos, incluindo 43 crianças, deslocados e mais de 2.200 pessoas afetadas. A ONU em Jerusalém Oriental é explícita: Israel deve “interromper imediatamente as medidas que fragmentam a continuidade territorial e demográfica palestina, inclusive em relação ao deslocamento forçado e à expansão dos assentamentos”, e recorda que a Corte Internacional de Justiça, em julho de 2024, confirmou que as políticas israelenses no Território Palestino Ocupado, incluindo despejos forçados e demolições extensivas de casas, contrariam a proibição de deslocamento forçado.

Os assentamentos não são um fenômeno separado da remoção coercitiva: são a sua causa e o seu instrumento. Cada novo assentamento ou posto avançado exige terra, e a terra é obtida por confisco, por ordens militares de demolição contra comunidades inteiras, por despejos de famílias que vivem há gerações nas mesmas colinas, por violência de colonos que expulsam pastores e agricultores de suas terras com a conivência ou a inação das forças israelenses. A fragmentação territorial resultante torna um Estado palestino contíguo geometricamente inviável. A cada novo assentamento, a solução de dois Estados perde um pedaço de território e de plausibilidade.

Foi exatamente essa realidade de remoção coercitiva que deu origem às sanções europeias de 8 de setembro de 2026, um marco nas relações entre Israel e seus aliados ocidentais. Onze países europeus mais o Canadá, totalizando doze, anunciaram planos de impor restrições nacionais ao comércio de bens provenientes dos assentamentos israelenses ilegais na Cisjordânia: Reino Unido, França, Dinamarca, Espanha, Finlândia, Irlanda, Islândia, Noruega, Polônia, Portugal, Suécia e Canadá. A declaração conjunta, divulgada pelo chanceler francês Jean-Noel Barrot, afirmou que os doze países confirmam sua intenção de impor restrições nacionais ao comércio de bens com assentamentos ilegais e saudou as medidas já adotadas por Irlanda, Espanha, Holanda, Noruega e Bélgica.

O chanceler britânico, Ed Miliband, foi o mais explícito. Ao anunciar o banimento da importação de todos os bens dos assentamentos, sanções contra empresas e indivíduos envolvidos na expansão, incluindo colonos extremistas, e a extensão do regime global de direitos humanos para deter o desenvolvimento do assentamento E1, Miliband declarou ao Parlamento que “o governo britânico concorda que existe limpeza étnica de palestinos em áreas da Cisjordânia, perpetrada por terroristas colonos, e que com demasiada frequência o governo israelense fecha os olhos para isso”, acrescentando que “membros do governo israelense fizeram declarações e tomaram ações que encorajam esse comportamento”. A Associated Press registrou a formulação: o Reino Unido baniu o comércio com os assentamentos “onde, segundo o governo, ‘terroristas colonos’ estão realizando ‘limpeza étnica’ de palestinos”. O Reino Unido já havia suspendido mais de 30 licenças de armas usadas pelas forças israelenses em Gaza.

Israel respondeu fechando o consulado britânico em Jerusalém Oriental, que serve de ligação com os palestinos, e banindo parlamentares do Reino Unido, em uma escalada diplomática sem precedentes entre os dois aliados. A chefe da diplomacia europeia, Kaja Kallas, afirmou que a expansão dos assentamentos está “minando” as perspectivas de uma solução de dois Estados, e o escritório de direitos humanos da ONU saudou as sanções como contribuição para os esforços de acabar com a violência e a ocupação. O detalhe relevante é que as sanções são simbólicas e tardias: produtos dos assentamentos representam uma fração mínima do comércio europeu com Israel, e o regime completo levará de seis a nove meses para ser implementado. A Europa reconhece o problema, mas age com instrumentos que não alteram a dinâmica no terreno.

A síntese estratégica: três frentes, um desenho

O quadro completo é o de uma engenharia demográfica em três frentes simultâneas.

Na frente externa, Israel importa população judaica do mundo inteiro, com a guerra na Ucrânia fornecendo um fluxo adicional de dezenas de milhares de imigrantes, muitos processados na Moldávia, país que em abril de 2025 recebeu a primeira embaixada israelense de sua história.

Na frente interna de Gaza, ministros em exercício apresentam planos eleitorais para remover a esmagadora maioria dos palestinos do território, com financiamento público e um ministério dedicado.

Na frente da Cisjordânia, os assentamentos avançam sobre terra palestina obtida por demolições, despejos e violência de colonos, enquanto a comunidade internacional reage com sanções que reconhecem a gravidade, mas não alteram os fatos no terreno.

A rota de fuga de judeus ucranianos e o plano de deslocamento de palestinos de Gaza e da Cisjordânia não são fenômenos paralelos. São as duas faces da mesma moeda: a busca por um Estado único entre o rio e o mar com maioria judaica permanente, alcançada tanto pelo reforço da população judaica quanto pela redução da população palestina.

A primeira face, o incentivo à imigração de judeus, é apresentada ao mundo como humanitária, e em grande medida o é, no nível individual.

A segunda face, a remoção de populações palestinas é apresentada como voluntária, mas a realidade documentada pela ONU, pela Corte Internacional de Justiça e pelas organizações de direitos humanos é a de remoção coercitiva: demolições, despejos, confisco de terras e violência de colonos, sob condições que tornam a permanência palestina insustentável.

A problematização: essa estratégia é uma limpeza étnica para enterrar a solução de dois Estados?

A pergunta que estrutura este ensaio é direta: a estratégia israelense de engenharia demográfica, composta pela aliyah como reforço populacional, pelos assentamentos na Cisjordânia e pelo plano de deslocamento de palestinos de Gaza, configura uma limpeza étnica destinada a enterrar a solução de dois Estados?

A resposta, com as precisões que a análise exige, é sim. Não no sentido de que cada peça do sistema seja, isoladamente, um crime de limpeza étnica no sentido jurídico estrito. Mas sim no sentido material e estratégico: o sistema como um todo produz exatamente o resultado que a definição de limpeza étnica descreve, a homogeneização étnica de um território pela remoção de um grupo populacional, e os seus formuladores mais explícitos declaram esse objetivo abertamente.

A definição de referência de limpeza étnica no direito internacional vem da Comissão de Peritos da ONU para a ex-Iugoslávia, de 1993: tornar uma área etnicamente homogênea pelo uso de força ou intimidação, para remover de uma determinada área pessoas de outros grupos étnicos. O Estatuto de Roma tipifica a deportação e a transferência forçada de população como crimes contra a humanidade. E a Corte Internacional de Justiça, no parecer consultivo de julho de 2024, confirmou que as políticas israelenses no Território Palestino Ocupado, incluindo despejos forçados e demolições extensivas de casas, contrariam a proibição de deslocamento forçado de população. O elemento central da definição é a coerção: a remoção por força, ameaça ou pela criação de condições que tornam a permanência inviável. Não é necessário que alguém seja arrastado fisicamente para fora de sua terra; basta que o Estado promova ativamente a saída enquanto as condições de vida são tornadas insustentáveis.

É contra esse marco que a estratégia israelense deve ser medida. E é importante separar as três peças do sistema, porque cada uma opera de uma maneira distinta, mas todas convergem para o mesmo resultado demográfico.

A aliyah, a imigração de judeus para Israel, não é, em si, limpeza étnica. É imigração de um grupo para um território, e o direito de retorno judaico é uma política de Estado reconhecida e institucionalizada há décadas. Mas a pergunta correta não é se a aliyah é legal; é qual função ela cumpre dentro do sistema. E a função é precisa: garantir a maioria judaica permanente sobre todo o território sob controle israelense, de Gaza ao rio Jordão. Os dados documentam a escala do reforço. Desde o início da guerra na Ucrânia, mais de 100.000 imigrantes judeus chegaram a Israel, com 22.522 somente em 2025, muitos processados nos hubs de trânsito da Moldávia, que se tornou rota de fuga e, depois, sede da primeira embaixada israelense de sua história. Cada imigrante que desembarca em Tel Aviv é um voto demográfico a favor da manutenção de uma maioria que, sem imigração contínua, estaria sob pressão estrutural da taxa de natalidade palestina. A aliyah não remove palestinos, mas torna a remoção deles dispensável para o objetivo demográfico: se a maioria judaica pode ser garantida pela importação de população, a presença palestina pode ser reduzida a fragmentos sem soberania sem ameaçar o caráter do Estado único. É o contrapeso que torna o projeto viável.

A segunda peça do sistema é a Cisjordânia, e aqui a tese de que os assentamentos não envolvem remoção coercitiva não resiste à documentação internacional. A criação e a expansão dos assentamentos são acompanhadas, de forma cotidiana e registrada, por demolições de casas, despejos forçados, confisco de terras e violência de colonos contra comunidades palestinas. O OCHA documenta, em relatórios periódicos, dezenas de estruturas demolidas e centenas de palestinos deslocados a cada ciclo. A ONU em Jerusalém Oriental é explícita ao exigir que Israel interrompa “as medidas que fragmentam a continuidade territorial e demográfica palestina, inclusive em relação ao deslocamento forçado e à expansão dos assentamentos”, e recorda o parecer da CIJ de 2024. Os assentamentos não são um fenômeno separado da remoção coercitiva: são a sua causa e o seu instrumento. Cada novo assentamento exige terra, e a terra é obtida por confisco, por ordens de demolição, por despejos de famílias que vivem há gerações nas mesmas colinas, por violência de colonos que expulsam pastores e agricultores com a conivência ou a inação das forças israelenses. Foi exatamente essa realidade que levou o governo britânico a agir. Em 8 de setembro de 2026, o chanceler Ed Miliband anunciou ao Parlamento o banimento da importação de todos os bens dos assentamentos, sanções contra empresas e indivíduos envolvidos na expansão, incluindo colonos extremistas, e declarou que “o governo britânico concorda que existe limpeza étnica de palestinos em áreas da Cisjordânia, perpetrada por terroristas colonos, e que com demasiada frequência o governo israelense fecha os olhos para isso”, acrescentando que membros do governo israelense “fizeram declarações e tomaram ações que encorajam esse comportamento”. Onze países europeus mais o Canadá, totalizando doze, aderiram à declaração conjunta de restrições ao comércio com os assentamentos. A expressão “limpeza étnica” não é, portanto, uma acusação de analistas: é o termo usado por um governo ocidental aliado de Israel para descrever o que ocorre na Cisjordânia.

A terceira peça é a mais explícita. Em 3 de setembro de 2026, o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, líder do partido Jewish Power, apresentou o plano “Disengagement 710” como peça central de sua campanha para as eleições de 27 de outubro: facilitar a saída de cerca de 1,86 milhão de palestinos de Gaza em sete anos, com um ministério dedicado, negociações com países de destino, pacotes de assistência de até 24 meses e investimento inicial de cerca de $3,3 bilhões, podendo chegar a $16,6 bilhões. O ministro da Defesa, Israel Katz, afirmou que Israel está preparado para facilitar a partida de palestinos por mar, ar e outros meios, uma vez que os Estados Unidos aprovem o plano, e declarou que não pode haver solução duradoura para Gaza sem a emigração palestina. O chefe do Conselho de Segurança Nacional, Shmuel Ben Ezra, convocou reunião de urgência sobre “incentivar a emigração voluntária” de palestinos de Gaza, e o ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, já defendeu políticas de incentivo à emigração palestina. A ideia não está na margem do governo; está dentro dele, e ressoa a proposta de Donald Trump, de fevereiro de 2025, de realocar os palestinos de Gaza durante a reconstrução do território como uma “Riviera do Oriente Médio”.

O plano é apresentado como voluntário, e é exatamente aí que reside a ficção jurídica. A voluntariedade não existe no vácuo. Quando a alternativa a partir é permanecer em um território destruído, com dezenas de milhares de mortos desde o início da ofensiva, deslocamento em massa, acesso humanitário restrito e cerco contínuo, a “escolha” de sair é uma escolha sob coação. O direito internacional reconhece esse fenômeno: a transferência forçada não exige que alguém seja arrastado para fora; basta que as condições tornem a permanência insustentável e que o Estado promova ativamente a saída. A arquitetura do plano, com ministério dedicado, financiamento público e negociação de países de destino, não é a linguagem de quem espera que a emigração aconteça espontaneamente. É a linguagem de quem a organiza como política de Estado. Por isso organizações internacionais e veículos como a Anadolu e o Palestine Chronicle qualificam o plano diretamente como limpeza étnica.

O resultado cumulativo das três peças é o sepultamento da solução de dois Estados. Os assentamentos fragmentam a Cisjordânia em enclaves desconectados, controlam as estradas e consomem as terras, tornando um Estado palestino contíguo geometricamente inviável; a cada novo assentamento, a solução de dois Estados perde um pedaço de território e de plausibilidade. O plano de Gaza, se implementado, elimina o segundo Estado ao remover a sua população. E a aliyah garante que o Estado único resultante tenha maioria judaica permanente e irreversível. As três peças servem ao mesmo desenho, e os atores que o conduzem não o escondem: Ben-Gvir fala em “solução histórica”, Katz afirma que não há solução sem emigração palestina, e a expansão dos assentamentos prossegue com sanções ocidentais que reconhecem a gravidade, mas chegam tarde e com instrumentos fracos.

Conclusão

A estratégia israelense de engenharia demográfica, composta pela aliyah como reforço populacional, pelos assentamentos com sua mecânica de remoção coercitiva e pelo plano de deslocamento de Gaza, configura, no sentido material e estratégico, uma política de limpeza étnica, e o seu efeito é enterrar a solução de dois Estados. A precisão que a análise exige é a seguinte: a aliyah em si não é limpeza étnica, é o reforço demográfico do mesmo projeto; os assentamentos envolvem remoção coercitiva documentada pela ONU e qualificada como limpeza étnica pelo governo britânico; e o plano de Gaza é a face explícita da transferência forçada, apresentada como voluntária sob condições que a tornam coercitiva. O conjunto produz o resultado que a definição descreve: um território entre o rio e o mar etnicamente homogeneizado, com maioria judaica permanente e uma população palestina reduzida a fragmentos sem soberania.

Os obstáculos são reais e devem ser ditos. O plano de Ben-Gvir é proposta de campanha, depende das eleições de 27 de outubro e das negociações de coalizão. Nenhum país confirmou receber 1,86 milhão de palestinos. Egito e os governos árabes rejeitam a mudança demográfica. O Departamento de Estado americano disse que não apoia deslocamento forçado. As sanções europeias, embora simbólicas, sinalizam isolamento crescente. Mas a direção da marcha é inequívoca. Israel trata a demografia como campo de batalha estratégico, com a mesma seriedade com que trata a defesa aérea ou a inteligência. A aliyah da Ucrânia, os assentamentos na Cisjordânia, com sua mecânica de remoção coercitiva, e o plano de Ben-Gvir para Gaza compõem um sistema coerente, cujo denominador comum é a maioria judaica em todo o território sob controle israelense. E o padrão internacional é o que o Guardian sintetizou: os ministros israelenses continuam anunciando seus planos abertamente, e o mundo continua não os levando a sério, até que se tornem realidade. As sanções de 8 de setembro são o sintoma desse descompasso: reconhecem a gravidade, chegam tarde e com instrumentos fracos. A pergunta que resta não é se a estratégia é uma limpeza étnica para enterrar a solução de dois Estados. É quanto tempo resta antes que ela se torne irreversível.

Referências

AL JAZEERA. Palestine weekly: Israeli ministers push for depopulation of Gaza. Doha, 8 set. 2026. Disponível em: https://www.aljazeera.com/amp/news/2026/9/8/palestine-weekly-israeli-ministers-push-for-depopulation-of-gaza. Acesso em: 9 set. 2026.

ANADOLU AGENCY. Israel’s security minister unveils plan to displace 1.86M Palestinians from Gaza. Ankara, 3 set. 2026. Disponível em: https://www.anews.com.tr/middle-east/2026/09/04/israels-security-minister-unveils-plan-to-displace-186m-palestinians-from-gaza. Acesso em: 9 set. 2026.

ARAB NEWS. Is Israel preparing to revive plans to displace Gaza’s Palestinians? Riad, 3 set. 2026. Disponível em: https://www.arabnews.com/middle-east/is-israel-preparing-to-revive-plans-to-displace-gazas-palestinians-3000336. Acesso em: 9 set. 2026.

ASSOCIATED PRESS. UK government bans goods from Israeli settlements and accuses settlers of ‘ethnic cleansing’. Nova York, 8 set. 2026. Disponível em: https://www.times-standard.com/2026/09/08/uk-government-bans-goods-israeli-settlements-west-bank/. Acesso em: 9 set. 2026.

CNN. UK unveils sanctions targeting Israeli settlements in the West Bank in major reset of relations. Atlanta, 8 set. 2026. Disponível em: https://www.cnn.com/2026/09/08/middleeast/uk-sanctions-israel-west-bank-settlements-intl. Acesso em: 9 set. 2026.

DAILY SABAH. Fury grows as Israel plans to displace 1.86M Palestinians from Gaza. Istambul, 4 set. 2026. Disponível em: https://www.dailysabah.com/world/mid-east/fury-grows-as-israel-plans-to-displace-186m-palestinians-from-gaza. Acesso em: 9 set. 2026.

DEUTSCHE WELLE. UK announces trade ban on West Bank Israeli settlements. Bonn, 8 set. 2026. Disponível em: https://amp.dw.com/en/uk-announces-trade-sanctions-on-israeli-settlements-in-occupied-west-bank/a-79155051. Acesso em: 9 set. 2026.

HAARETZ. Top Israeli Defense Official Calls Urgent Meeting on Plan to Displace Gazans. Tel Aviv, 23 jun. 2026. Disponível em: https://www.haaretz.com/gaza/2026-06-23/ty-article/.premium/top-israeli-defense-official-calls-urgent-meeting-on-plan-to-displace-gazans/0000019e-f59b-d58e-afbf-f5dbed220000. Acesso em: 9 set. 2026.

INFOMIGRANTS. Israel evacuates Jewish Ukrainians from Moldova. Paris, 15 abr. 2022. Disponível em: https://www.infomigrants.net/en/post/39903/israel-evacuates-jewish-ukrainians-from-moldova. Acesso em: 8 set. 2026.

JEWISH TELEGRAPHIC AGENCY. In Moldova, Jewish life is fueled by descendants of those who fled and new refugees from Ukraine. Nova York, 9 set. 2025. Disponível em: https://www.jta.org/2025/09/09/global/in-moldova-jewish-life-is-fueled-by-descendants-of-those-who-fled-and-new-refugees-from-ukraine. Acesso em: 8 set. 2026.

LE MONDE. 11 European countries and Canada sanction products from Israeli settlements in West Bank. Paris, 9 set. 2026. Disponível em: https://www.lemonde.fr/en/international/article/2026/09/09/eleven-european-countries-and-canada-impose-sanctions-on-israel-over-products-from-settlements-in-the-west-bank\_6757323\_4.html. Acesso em: 9 set. 2026.

MIDDLE EAST MONITOR. UK announces sanctions on illegal Israeli settlements in occupied West Bank. Londres, 8 set. 2026. Disponível em: https://www.middleeastmonitor.com/20260908-uk-announces-sanctions-on-illegal-israeli-settlements-in-occupied-west-bank/. Acesso em: 9 set. 2026.

OCHA. Humanitarian Situation Update #350: West Bank. Nova York, 2025. Disponível em: https://www.unocha.org/publications/report/occupied-palestinian-territory/humanitarian-situation-update-350-west-bank. Acesso em: 9 set. 2026.

REUTERS. Netanyahu partners renew calls for removal of Gazans as Israeli election nears. Londres, 4 set. 2026. Disponível em: https://www.reuters.com/world/middle-east/netanyahu-partners-renew-calls-removal-gazans-israeli-election-nears-2026-09-04/. Acesso em: 9 set. 2026.

THE GUARDIAN. Israeli minister confirms goal of large-scale expulsion of Palestinians from Gaza. Londres, 28 maio 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/may/28/israels-defence-minister-says-large-scale-palestinian-migration-from-gaza-will-go-ahead. Acesso em: 9 set. 2026.

THE GUARDIAN. Israeli ministers keep telling everyone their brutal plans. Londres, 7 set. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/commentisfree/2026/sep/07/israeli-ministers-brutal-plans-palestinians-gaza. Acesso em: 9 set. 2026.

THE GUARDIAN. UK accuses Israeli ‘terrorists’ of ethnic cleansing in West Bank with government backing. Londres, 9 set. 2026. Disponível em: https://www.theguardian.com/world/2026/sep/08/uk-accuses-israeli-terrorists-ethnic-cleansing-west-bank-government-backing. Acesso em: 9 set. 2026.

THE INDEPENDENT. Miliband accuses Israeli ‘terrorists’ of ethnic cleansing in West Bank as he announces sweeping sanctions. Londres, 8 set. 2026. Disponível em: https://www.independent.co.uk/news/uk/politics/israel-sanctions-west-bank-us-ed-miliband-trump-b3046602.html. Acesso em: 9 set. 2026.

THE JERUSALEM POST. 22,522 Jews moved to Israel in 2025. Jerusalém, 2025. Disponível em: https://www.facebook.com/TheJerusalemPost/posts/22522-jews-moved-to-israel-in-2025-during-an-active-warswipe-to-see-whos-coming-/1473448188142484/. Acesso em: 8 set. 2026.

THE JERUSALEM POST. First three flights of Ukrainian olim to arrive Sunday. Jerusalém, 4 mar. 2022. Disponível em: https://www.jpost.com/diaspora/article-699154. Acesso em: 8 set. 2026.

THE JEWISH AGENCY. First flights of Ukrainian Jewish immigrants to arrive in Israel on Sunday. Jerusalém, 2 mar. 2022. Disponível em: https://www.jewishagency.org/first-flights-of-ukrainian-jewish-immigrants-to-arrive-in-israel-on-sunday/. Acesso em: 8 set. 2026.

THE JEWISH AGENCY. The Jewish Agency launches Aliyah Express program to expedite Ukrainian immigration to Israel. Jerusalém, 21 mar. 2022. Disponível em: https://www.jewishagency.org/the-jewish-agency-launches-aliyah-express-program-to-expedite-ukrainian-immigration-to-israel. Acesso em: 8 set. 2026.

THE JEWISH AGENCY. Ukraine update: September 2022. Jerusalém, 26 out. 2022. Disponível em: https://www.jewishagency.org/jewish-agency-ukraine-update-september-2022/. Acesso em: 8 set. 2026.

THE NEW YORK TIMES. Once victims in Southeast Europe, Jews come to aid Ukraine refugees. Nova York, 7 mar. 2022. Disponível em: https://www.nytimes.com/2022/03/07/world/europe/ukraine-israel-moldova-jews.html. Acesso em: 8 set. 2026.

THE TIMES OF ISRAEL. From chaos to cooperation: Moldova learns to cope with Ukrainian refugees. Jerusalém, 21 mar. 2022. Disponível em: https://www.timesofisrael.com/from-chaos-to-cooperation-moldova-learns-to-cope-with-ukrainian-refugees/. Acesso em: 8 set. 2026.

THE TIMES OF ISRAEL. Jewish Agency to ramp up immigration flights from Ukraine to tackle refugee crisis. Jerusalém, 21 mar. 2022. Disponível em: https://www.timesofisrael.com/jewish-agency-to-ramp-up-immigration-flights-from-ukraine-to-tackle-refugee-crisis/. Acesso em: 8 set. 2026.

UNITED NATIONS IN PALESTINE. East Jerusalem: forced displacement and territorial fragmentation. Jerusalém, 20 jan. 2026. Disponível em: https://palestine.un.org/en/308597-east-jerusalem-forced-displacement-and-territorial-fragmentation. Acesso em: 9 set. 2026.