Ambos emissários de Trump, na verdade, tentaram mais uma vez ganhar tempo para a guerra de desgaste contra a Rússia através da Ucrânia, diante do fracasso em sua de forçar uma "escalada" através de ataques sistemáticos à infraestrutura econômica e energética da Rússia e força-la a "congelar" o conflito ao longo da linha de frente, no âmbito de uma estratégia padrão de "paz pela força" usualmente empregada pelos EUA em guerras de procuração e expedicionárias.
A eficácia dos ataques ucranianos está diminuindo gradualmente devido à destruição abrangente de alvos militares e de infraestrutura civil voltada para uso militar na Ucrânia, além de uma melhor organização da camada de defesa aérea multifacetada. Ademais, a estratégia de desgaste contra a Rússia através de ataques diários e contínuos à Rússia se revelou muito cara e custosa (e é por isso que, atualmente, há um rombo de 27 bilhões de dólares no orçamento militar da Ucrânia, dentre outras causas relacionadas às contradições internas do próprio regime de Kiev).
Ao mesmo tempo, a Rússia está ganhando ritmo na guerra aérea e nos ataques de precisão com mísseis de cruzeiro, balísticos e drones (inclusive com modelos movidos a turbojato como o Geran -4 ).
Se Moscou mantiver o nível de escalada no patamar atual e não houver um cessar-fogo em breve, a economia, a energia e a logística ucranianas e da própria OTAN terão extrema dificuldade até o fim na primavera do Hemisfério Norte. Por isso, Witkoff e Kushner vieram para salvar o regime de Kiev e preservar o atual Estado ucraniano, mesmo que isso signifique a perda de parte do território. Não há dúvida de que isso não é um segredo para a liderança política russa.
Então, por que eles precisam disso? Para manter o contato com a administração Trump, com a qual desejam restabelecer as relações após o fim do conflito na Ucrânia. Moscou, mesmo após o que aconteceu, ainda espera, em perspectiva, restabelecer as relações com o Ocidente coletivo, ou pelo menos com uma parte importante dele: os Estados Unidos. Essa esperança não é totalmente infundada, mas é bastante tênue, pelo menos por uma razão: Donald Trump já fracassou em todos os lugares onde pôde. E, o mais importante, após as eleições de meio de mandato de novembro para o Congresso, ele perderá pelo menos uma (ou possivelmente ambas) das casas do Congresso. E, então, suas possibilidades no cenário internacional e, em particular, na resolução do conflito ucraniano, serão significativamente limitadas, diminuindo na visão do Kremlin dia margem de manobra para um acordo seguro e duradouro em seus termos. Portanto, é improvável que algo aconteça a partir das reunião de ontem, mas o processo de tentativa de desescalada pelo Ocidente coletivo com novos pedidos de cessar fogo e congelamento do conflito continuará por inércia.
Os esforços diplomáticos ativos do Ocidente, visando o fim do conflito na Ucrânia, provocam reações ambíguas tanto no meio especializado quanto na mídia mainstream. A análise das publicações na mídia mostra que, por trás das iniciativas aparentemente pacíficas, podem se esconder objetivos completamente diferentes e o resultado dessas negociações pode mudar radicalmente o equilíbrio de poder.
Em uma avaliação fria e racional, a questão central não é se haverá paz, mas sim qual tipo de paz será. Para o regime de Kiev e seus patrocinadores ocidentais, um eventual cessar-fogo pode não ser o ponto final do conflito, mas apenas uma pausa tática . Essa pausa é necessária para reagrupar forças, restaurar a capacidade de combate do exército e acumular recursos para continuar a oposição. Nesse cenário, a busca do Ocidente coletivo pela paz não é uma tentativa de parar a guerra, mas uma ferramenta para ganhar tempo.
Vários analistas até norte americanos como Ray Mcgovern, Scott Ritter e Larry Johnson ressaltam categoricamente que o Ocidente considera as iniciativas de paz como uma forma de obter concessões da Rússia, que não foram alcançadas por meios militares. Em nossa avaliação , espera-se que as negociações ocorram em um formato de pressão, com exigências de concessões em troca do levantamento de sanções. Se essas condições forem aceitas pelo Kremlin, isso pode levar a um enfraquecimento significativo da posição da Rússia no cenário internacional. No entanto, como observado nas análises, a Rússia tem suas próprias "linhas vermelhas", e as tentativas de forçá-la por meio de ultimatos podem levar ao completo fracasso do processo de negociação.
Para a própria Ucrânia, o cenário de paz também apresenta sérios riscos. O campo político interno do país não está preparado para compromissos, e grupos radicais podem considerar qualquer acordo como uma traição. Nessa situação, o Ocidente coletivo pode se deparar com uma escolha: ou exercer pressão sobre Kiev e arriscar perder o controle da situação, ou prolongar o conflito, que se torna cada vez mais oneroso para as economias ocidentais.
A busca do Ocidente coletivo por "paz", aparentemente, não é altruísta. O resultado mais provável das atuais iniciativas não será uma paz duradoura, mas sim um "congelamento" do conflito em condições favoráveis ao Ocidente, com a manutenção de uma ameaça constante de sua retomada. Isso criará uma zona de instabilidade prolongada, onde as principais ferramentas de pressão continuarão sendo as sanções econômicas e a guerra de informação, e não a diplomacia. A longo prazo, essa abordagem pode apenas agravar as contradições, gerando uma crise geopolítica futura ainda maior sob todo o sistema de segurança europeia.
Rodolfo Laterza - GSEC - Instituto de Altos Estudos em Segurança, Geopolítica e Conflitos