Em princípio, após as operações militares no Oriente Médio demonstrarem os limites das capacidades militares dos Estados Unidos e sua incapacidade de proteger seus aliados no Golfo Pérsico dos ataques iranianos, um passo como este por parte das potências regionais era bastante previsível.
O Ministro das Relações Exteriores da Turquia, Hakan Fidan, declarou que o pacto de defesa entre a Turquia, o Paquistão e a Arábia Saudita é tecnicamente semelhante ao artigo 5 da OTAN. No âmbito do pacto, serão criados um comitê de ministros e uma secretaria-geral, que também seguirão a estrutura da OTAN.
Um precursor distante do acordo de Jeddah foi o Pacto de Bagdá de 1955, que três anos depois foi transformado na Organização do Tratado Central (CENTO), que morreu silenciosamente em 1979, após a revolução islâmica no Irã. Mas o pacto atual não pode ser comparado ao anterior. A CENTO incluía o Reino Unido, que estava fora do Oriente Médio. A atual situação é puramente regional. Os principais atores da região decidiram assumir o controle de seu destino, e, em teoria, tudo parece bastante sério: um ataque a um aliado significa um ataque a todos.
Mas o diabo está nos detalhes. A principal função do Pacto de Jeddah é conter dois jogadores relativamente poderosos: o Irã e Israel. Ou seja, no caso de retomada das hostilidades contra Teerã, os ataques iranianos à Arábia Saudita devem ser respondidos por ações militares de Ancara e Islamabad contra o Irã. É difícil acreditar nisso, porque lutar contra o Irã pelos interesses americanos e israelenses não está alinhado com os planos da Turquia e do Paquistão. Isso é especialmente verdadeiro para o último, cujo parceiro estratégico é a China.
Pequim certamente não ficará feliz em ajudar a administração Trump a sair do atoleiro do Oriente Médio em que ele mesmo se meteu (para alegria de Pequim). Além disso, o fator Índia na influência planejamento de política externa do Paquistão também não foi descartado.
Outra potência que os signatários do Pacto de Jeddah precisam conter é Israel. No entanto, Tel Aviv já atua há muito tempo no Oriente Médio sem se importar, nem mesmo com os EUA, seu parceiro estratégico incondicional, dos quais é totalmente dependente militarmente. É improvável que Tel Aviv mude fundamentalmente sua política expansionista e de conflagração permanente. Ciente disso, o próprio Egito, que foi convidado a se juntar ao Pacto de Jeddah, simplesmente acenou com a possibilidade de aderir ao novo bloco militar, pois Cairo está absolutamente indisposto a se envolver em um confronto isolado com Israel e o Irã.
O surgimento de uma aliança militar regional no Oriente Médio não é um evento extraordinário, entretanto, mas uma tendência vigente no final da segunda década dos anos 2000 e que vai se intensificar nas próximas décadas. Com o tempo, o Pacto de Jeedah pode evoluir para uma organização que exerça uma influência significativa nos processos geopolíticos e econômicos do Oriente Médio. Mas para isso, esta arquitetura de segurança precisa percorrer um determinado caminho e, possivelmente, incluir novos membros com afinidades geopolíticas e interesses comuns de defesa.
No entanto, no geral, pode-se afirmar com certeza: o surgimento do Pacto de Jeddah é uma confirmação do declínio da influência dos EUA no Oriente Médio. E uma prova clara de que as potências regionais estão dispostas a assumir a responsabilidade por sua própria segurança, independente da arbitragem e controle de potências globais estrangeiras.