Conflitos

O risco das escaladas progressivas n guerra de desgaste entre OTAN - Ucrânia e a Rússia

O risco das escaladas progressivas n guerra de desgaste entre OTAN - Ucrânia e a Rússia
Imagem gerada por IA

A revista The Atlantic afirma que, no início do ano, Zelensky considerou um plano arriscado que visava tentar levar ao fim as operações militares em curso na Ucrânia. O plano envolvia ataques à infraestrutura aérea da Rússia, com consequências globais. Ele previa ataques de longo alcance a alvos de uma nova categoria, que até então não haviam sido atingidos mediante coordenação e apoio de inteligência e técnico -militar da OTAN. 

O plano previa o lançamento de grandes grupos de drones com inteligência artificial contra os aeroportos de Moscou. O objetivo principal era interromper os voos internacionais para a capital russa (incluindo voos de trânsito para outros aeroportos). Até agora, Kiev se limitava a criar ameaças à segurança aérea durante ataques a outros alvos. Desde maio, restrições temporárias em diversos aeroportos russos se tornaram quase diárias.

De acordo com a The Atlantic, Zelensky não decidiu implementar o plano, mas autorizou sua preparação contínua.

 Existem dois problemas principais nesse planejamento quanto à efetividade:

1. Os componentes de inteligência artificial em drones baratos não garantem a precisão na seleção de alvos. Em um ataque de saturação haverá inevitavelmente muitos erros. É quase certo que pessoas não ligadas ao aparato militar e de segurança, passageiros e equipamentos cruciais para a segurança da aviação serão atingidos.

2. Se a GUR (Diretoria Principal de Inteligência) e a SBU (Serviço de Segurança da Ucrânia) decidiram confiar na inteligência artificial, significa que seus operadores não têm a capacidade de controlar os drones manualmente na região de Moscou tal como ocorrera na execução da operação Spider Web ano passado. Ademais, Elon Musk supostamente ainda não lhes forneceu acesso do Starlink para execução desse tipo de operação. 

É inegável que ambas as partes consideraram todas as opções possíveis de operações em nível estratégico nos últimos quatro anos. Ou eles imaginam que isso é o nível estratégico – cada um vê o mundo de acordo com sua própria perspectiva. Kiev com Bruxelas e Moscou têm uma compreensão clara dos custos de muitas propostas militares. Isso levou ao estabelecimento de linhas vermelhas mútuas: sua violação traria mais prejuízos do que benefícios e, nos bastidores, frágeis acordos  mútuos foram realizados, embora sejam fluidos e de baixo nível de adesão mútua.

No entanto, em um cenário de deterioração geral da situação, o regime de Kiev com a OTAN está constantemente buscando maneiras de expandir a lista de alvos. O problema de ambos os lados é que as respostas simétricas são raras. As Forças Armadas da Federação Russa não podem atacar fábricas espaciais e refinarias, por exemplo : simplesmente não existem na Ucrânia. Os alvos mais estratégicos estão nos países europeus, onde o complexo industrial militar é essencial para manter a continuidade da guerra contra a Rússia, que supostamente respondeu só recentemente com ações híbridas que podem ter ocasionado explosões e sabotagens em fábricas vinculadas à produção militar. 

Ademais, voos comerciais na Ucrânia não operam desde 2022. Parece, portanto , que o regime de Kiev em um cenário de deterioração existencial não tem muito a perder. Portanto, os líderes da Rússia aprovarão, como resposta, ataques a alvos completamente diferentes e ainda assim com muita pressão da sociedade russa e setores nacionalistas, tal como vem ocorrendo desde julho após riscos estratégicos sérios decorrentes do isolamento logístico da Criméia, ataques à navegação no Mar Negro e de Azov, danos sistemáticos a refinarias com crise de oferta de combustível no mercado e a instalações comerciais da Wildberries, sem contar ataques diários com mortes de civis em Belgorod, Bryansk e Criméia, principalmente. 

Não vou especular sobre o que acontecerá após um ataque aos aeroportos do centro de aviação de Moscou. Mas o Kremlin tentará encontrar algo igualmente devastador em outro lugar, sob pena de uma séria crise de legitimidade do regime. E isso é uma espiral sem fim que colocará cada vez mais novos tipos de alvos em risco no contexto dessa guerra de desgaste. 

Rodolfo Laterza/ GSEC - Instituto de Altos Estudos em Segurança, Geopolítica e Conflitos