Conflitos

A transformação das forças blindadas diante do campo de batalha moderno

A transformação das forças blindadas diante do campo de batalha moderno

Texto original- Modern War Institute

Autores: Alan Hastings, James Casey and Elijah Leroux | 08.28.26

warTradução e adaptação- E.M.Pinto


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Durante os últimos anos, acadêmicos e profissionais militares têm debatido intensamente a relevância das formações blindadas em um campo de batalha moderno cada vez mais letal, marcado pela proliferação de sensores, fogos de precisão de longo alcance e redes integradas de comando e controle.

Conflitos recentes — entre eles a Guerra Israel-Hezbollah de 2006, a Batalha de Mossul em 2017, a Segunda Guerra de Nagorno-Karabakh, em 2020, e a contraofensiva ucraniana de 2023 contra a Linha Surovikin — parecem reforçar as afirmações de que a guerra de manobra estaria perdendo sua viabilidade. O debate, entretanto, permanece aberto entre observadores, pesquisadores e militares, variando de análises superficiais impulsionadas pela cobertura da mídia a estudos aprofundados sobre a evolução da guerra terrestre.

É inegável que as operações de armas combinadas e o emprego de forças blindadas enfrentam desafios significativos no ambiente operacional contemporâneo. Esses obstáculos, porém, não são considerados insuperáveis.

Segundo os autores, a resposta exige que as forças blindadas e de cavalaria desenvolvam novos conceitos operacionais, modifiquem sua organização e treinamento e estejam preparadas para integrar novas capacidades em formações de armas combinadas.

A função fundamental dos blindados, contudo, permanece. Quando empregados como parte de uma força conjunta e de armas combinadas, os veículos blindados oferecem capacidade para sobreviver a complexos de reconhecimento e ataque adversários, romper defesas preparadas e manter o avanço em direção às áreas mais vulneráveis da retaguarda inimiga. Para os autores, nenhuma outra formação do Exército dos Estados Unidos está mais preparada para cumprir essas tarefas.

Os desafios da guerra de manobra e o valor persistente dos blindados

Dois desafios principais — um antigo e outro relativamente novo — ajudam a explicar o caráter cada vez mais posicional da guerra contemporânea.

O primeiro está relacionado à própria natureza das operações de combate em larga escala contra adversários de capacidade militar equivalente. A dimensão desses conflitos limita as possibilidades de manobra ofensiva.

Historicamente, planejadores militares procuram brechas, áreas de separação ou flancos vulneráveis que permitam penetrar nas defesas preparadas do adversário. Entretanto, forças de mesmo nível tecnológico e militar podem dispor de efetivos e poder de combate suficientes para estabelecer posições defensivas contínuas e em profundidade.

A consequência é que a ruptura dessas linhas pode exigir operações ofensivas extremamente custosas. Mesmo quando o atacante consegue penetrar nas posições defensivas, existe o risco de que sua ofensiva perca impulso antes que seja possível explorar a ruptura.

Ao mesmo tempo, os comandantes defensores podem reorganizar as forças sobreviventes e deslocar reservas para estabelecer novas posições defensivas, restaurando a integridade de suas linhas.

O papel decisivo da integração ar-terra

A coordenação entre forças aéreas e terrestres historicamente foi fundamental para superar esse primeiro conjunto de obstáculos.

O controle do espaço aéreo permitiu às forças terrestres concentrar tropas e penetrar em defesas preparadas sem sofrer ataques aéreos significativos. Também protegeu a extensa estrutura logística necessária para sustentar o avanço.

Quando a logística é atingida com sucesso por ataques aéreos, o avanço pode ser interrompido, provocando a culminação prematura da ofensiva e deixando as forças blindadas avançadas isoladas.

Com apoio aéreo aproximado e operações de interdição, formações blindadas de armas combinadas podem romper as defesas e ampliar a penetração.

Esse tipo de integração contribuiu para algumas das grandes vitórias militares da história moderna, incluindo a invasão alemã da França, a derrota do Egito por Israel na Guerra do Yom Kippur de 1973 e o êxito da coalizão liderada pelos Estados Unidos na Operação Tempestade no Deserto.

Entretanto, a superioridade aérea que por décadas favoreceu os Estados Unidos e seus aliados vem sendo cada vez mais contestada por adversários capazes de dificultar o acesso ao espaço aéreo e neutralizar parte das vantagens ocidentais.

O novo desafio: sensores, drones e fogos de precisão

Surge, assim, um segundo desafio: a integração de sensores disseminados e fogos de precisão de longo alcance em complexos de reconhecimento e ataque.

Essa combinação dificulta que o atacante obtenha surpresa, concentre forças e mantenha o ritmo necessário para explorar uma ruptura.

Nos últimos anos, adversários dos Estados Unidos desenvolveram sistemas integrados de defesa aérea e antimíssil destinados a contestar o domínio aéreo e impedir que aeronaves norte-americanas e aliadas contribuam livremente para operações terrestres.

Sem apoio aéreo aproximado e capacidade de interdição, torna-se muito mais difícil penetrar nas defesas adversárias, fixar suas forças e isolar suas reservas.

Drones baratos, munições vagantes e mísseis guiados por precisão permitem que forças adversárias contornem parte das vantagens ocidentais no domínio aéreo. Esses sistemas passaram a desempenhar funções historicamente associadas ao poder aéreo: detectar e atacar.

A fusão entre vigilância disseminada e fogos de precisão de longo alcance, denominada pelos autores de táticas de reconhecimento-ataque, aumenta ainda mais a dificuldade para os comandantes terrestres conduzirem operações de manobra.

Nesse contexto, surge uma nova dimensão contestada do campo de batalha: o litoral ar-terra, espaço no qual, segundo os autores, será determinada a viabilidade futura das operações de armas combinadas.

A guerra de sensores amplia a zona de destruição

A natureza contestada do espaço ar-terra e a eficácia dos complexos adversários de reconhecimento e ataque voltam a colocar em questão a capacidade das forças blindadas de obter surpresa, concentrar tropas e manter o ritmo operacional.

A integração de drones capazes de detectar e atacar, guerra eletrônica ofensiva e defensiva e fogos de precisão de longo alcance cria densas redes de sensores e sistemas de ataque.

O resultado é a ampliação da área letal que os atacantes precisam atravessar.

Esse problema agrava uma dificuldade histórica: a penetração de posições defensivas bem preparadas, protegidas por obstáculos de mobilidade e sistemas anticarro capazes de realizar fogo direto letal.

Ainda assim, os autores consideram que esses obstáculos podem ser superados.

As capacidades específicas das formações blindadas de armas combinadas continuariam sendo, em sua avaliação, uma das alternativas mais viáveis para romper defesas preparadas, conquistar e manter terreno e restabelecer a capacidade de manobra no campo de batalha contemporâneo.

O campo de batalha não é uniforme

Um aspecto considerado fundamental pelos autores é que os complexos de reconhecimento e ataque do inimigo não são homogêneos nem estão distribuídos uniformemente pelo campo de batalha.

Diferenças na capacidade de vigilância, ataque e defesa ao longo da frente podem criar oportunidades para operações ofensivas.

Os autores citam como exemplos as contraofensivas ucranianas em Kharkiv e Kursk, em 2022 e 2024.

A conclusão é que a criação e exploração de posições de vantagem relativa — princípio central da guerra de manobra — continua sendo possível.

Por isso, líderes militares norte-americanos não deveriam abandonar a manobra e simplesmente assumir uma postura baseada exclusivamente em guerra posicional ou de atrito.

As condições atuais favorecem a guerra posicional, mas, segundo os autores, não a tornam inevitável.

O papel dos blindados permanece central

Para os autores, o papel histórico dos blindados continua fundamental para o sucesso das operações conjuntas.

As formações blindadas são empregadas para:

  • penetrar defesas preparadas;
  • conquistar e manter terreno;
  • desarticular formações inimigas;
  • explorar rupturas;
  • transformar sucessos táticos em vantagens operacionais.

O poder de fogo protegido e a mobilidade permitem aos comandantes terrestres ameaçar diferentes setores da linha defensiva adversária e concentrar rapidamente um poderoso ataque de armas combinadas quando surgem oportunidades.

Durante a exploração, proteção, mobilidade e poder de fogo permitem transformar uma vantagem tática em uma posição operacional favorável.

O avanço para áreas de apoio do inimigo também pode permitir atacar elementos essenciais dos complexos de reconhecimento e ataque responsáveis por contestar o espaço ar-terra.

Segundo os autores, não existe, dentro das Forças Armadas dos Estados Unidos, organização mais adequada para atravessar o espaço exposto criado pelos complexos de reconhecimento e ataque e penetrar rapidamente em defesas preparadas do que a Brigada de Combate Blindada.

Da mesma forma, as divisões e corpos de exército blindados seriam as formações mais adequadas para explorar essas rupturas e obter uma posição operacional vantajosa contra forças terrestres adversárias.

Quatro condições para recuperar a manobra

A utilização de forças blindadas continua viável, mas depende da criação das condições adequadas.

Antes de comprometer grandes formações blindadas em combate, seria necessário alcançar uma forma de domínio local no espaço ar-terra.

Entre os conceitos em análise estão a criação de “zonas de domínio proximal” e de “áreas de atividade ou oportunidade reduzida para drones inimigos”.

Forças ucranianas também vêm experimentando métodos destinados a recuperar a capacidade de manobra por meio de uma abordagem de armas combinadas estruturada em sete fases.

Independentemente da solução adotada, os autores consideram que quatro elementos serão indispensáveis:

1. Reconhecimento Identificar vulnerabilidades na profundidade tática e operacional das defesas inimigas, combinando métodos tradicionais de reconhecimento com drones de sensores e apoio de guerra eletrônica.

2. Mascaramento Empregar munições vagantes, drones de ataque, guerra eletrônica e artilharia para cegar a rede de sensores inimiga, ocultar as forças amigas e preservar a surpresa.

3. Supressão Utilizar fogos conjuntos para reduzir a capacidade dos sistemas adversários de reconhecimento e ataque.

4. Isolamento Impedir que as formações inimigas concentrem seus efeitos durante as operações de ruptura.

Ao mesmo tempo, guerra eletrônica em camadas, defesa aérea e sistemas contra drones devem proteger as formações e impedir que a ofensiva perca seu impulso antes de atingir seus objetivos.

Para os autores, transformar a maneira como as forças blindadas pensam, se organizam, treinam e são equipadas deve ser a prioridade central.

A transformação das forças blindadas já está em andamento

As forças blindadas precisam desenvolver capacidade para dominar o espaço ar-terra, atravessar áreas expostas e penetrar nas posições defensivas preparadas de adversários de nível equivalente.

A avaliação apresentada é que as atuais brigadas blindadas, divisões e corpos de exército dos Estados Unidos não podem simplesmente combinar os mesmos recursos empregados no passado para enfrentar os problemas do campo de batalha futuro.

Novos conceitos de combate, organização, treinamento e equipamentos precisam permitir a integração das capacidades emergentes em formações blindadas de armas combinadas.

Líderes da comunidade blindada norte-americana estão desenvolvendo conceitos para responder aos desafios do campo de batalha contemporâneo.

A 1ª Divisão de Cavalaria, por exemplo, desenvolveu uma abordagem de armas combinadas baseada em ondas, concebida para criar uma janela temporária de domínio no espaço ar-terra.

O conceito combina detecção, ataques de precisão e supressão com proteção em camadas, permitindo a penetração e exploração das defesas inimigas.

Drones passam a integrar a transformação das brigadas

No âmbito da iniciativa “Transformation in Contact”, várias formações blindadas norte-americanas vêm experimentando drones, sistemas contra drones, defesa aérea e novas capacidades de comando e controle.

Em outubro de 2025, a 2ª Brigada da 1ª Divisão de Cavalaria experimentou mudanças organizacionais destinadas a aumentar a capacidade de combate de uma brigada blindada.

Entre as mudanças estavam uma tropa multifuncional de reconhecimento e ataque, tropas de cavalaria pesada e tropas e seções de ataque blindado.

Essas formações receberam novas capacidades, incluindo drones, munições vagantes, sistemas contra drones e guerra eletrônica.

Em maio de 2026, a 2ª Brigada da 3ª Divisão de Infantaria experimentou uma estrutura organizacional significativamente diferente, concebida para detectar e atacar alvos a até 40 quilômetros.

As observações e lições obtidas nesses exercícios estão sendo utilizadas para orientar o debate e a cooperação dentro da comunidade blindada norte-americana.

Os experimentos devem continuar, inclusive por meio de futuras rotações no National Training Center.

Novos padrões de treinamento e emprego

A transformação também ultrapassa as brigadas especificamente designadas para programas experimentais.

A Escola de Blindados do Exército dos Estados Unidos e o III Corpo de Exército estabeleceram uma parceria por meio da Armored Transformation and Standardization Initiative, destinada a promover mudanças em toda a força blindada.

A 4ª Divisão de Infantaria lidera esforços relacionados à sobrevivência das formações, contribuindo para o desenvolvimento de normas de treinamento sobre cobertura, ocultação e camuflagem.

A 1ª Divisão de Infantaria lidera o desenvolvimento de padrões de treinamento para sistemas aéreos não tripulados, enquanto a 1ª Divisão Blindada trabalha na definição de padrões de treinamento contra drones.

Já a 1ª Divisão de Cavalaria conduz o desenvolvimento do manual para o pelotão de ataque blindado.

No âmbito institucional, a Escola de Blindados também está modificando o treinamento inicial e a formação profissional dos militares.

Novos cursos, como o Robotics Master Trainer Course e o Robotics and Autonomous Systems Tactics Leader Course, estão sendo implementados para preparar uma nova geração de operadores, instrutores e líderes especializados em sistemas robóticos e autônomos.

Vulnerabilidades ainda permanecem

Apesar dos avanços, os autores ressaltam que a transformação das forças blindadas e das formações de armas combinadas está longe de ser concluída.

Os experimentos com aeronaves não tripuladas ainda não alcançaram a escala observada em conflitos recentes ao redor do mundo.

As formações blindadas continuam vulneráveis a drones, munições vagantes e enxames de drones, enquanto os investimentos recentes do Exército em unidades de defesa aérea de curto alcance e capacidades contra drones ainda precisam produzir seus efeitos em escala.

A ampliação e integração da guerra eletrônica também são consideradas prioridades urgentes.

A comunidade blindada do Exército dos Estados Unidos reconhece esses desafios e busca adaptar suas forças para enfrentá-los.

A mudança, entretanto, exige repensar continuamente a maneira como as forças terrestres combatem, se organizam, treinam e são equipadas.

O objetivo não é simplesmente preservar a guerra de manobra tradicional, mas adaptá-la às condições de um campo de batalha no qual sensores, drones, guerra eletrônica, defesa aérea e fogos de precisão desempenham papel cada vez maior.

Um chamado à ação

Os autores alertam que nem todos dentro das próprias fileiras militares compreendem plenamente o processo de transformação em curso.

Sem essa compreensão, oficiais e soldados mais jovens podem questionar como irão sobreviver, combater e vencer utilizando os equipamentos atualmente disponíveis nas unidades.

Para que a transformação seja contínua, é necessário o envolvimento de líderes em todos os níveis.

Treinamento rigoroso e orientado para o combate, valorização do papel das forças blindadas dentro das operações conjuntas e de armas combinadas e compartilhamento sistemático das lições aprendidas podem acelerar esse processo.

Para isso, entretanto, os responsáveis pela transformação precisam estar adequadamente informados.

Os oficiais superiores devem priorizar programas de desenvolvimento profissional que ampliem a compreensão compartilhada sobre a transformação das forças blindadas e sobre o papel de cada unidade nesse processo.

Entre as plataformas destinadas a esse objetivo estão a Armored Transformation and Standardization Initiative e o Armored Brigade Combat Team Warfighters’ Forum.

Os oficiais mais jovens também possuem papel decisivo.

Para permanecer relevante no campo de batalha moderno, a nova geração de comandantes deve não apenas estudar, mas também produzir conhecimento, registrar experiências e participar dos debates profissionais.

A transformação, segundo os autores, não pode ser exclusivamente conduzida de cima para baixo.

O Exército dos Estados Unidos não trabalha com uma visão predeterminada e imutável do futuro. Ao contrário, incentiva experimentação, curiosidade intelectual e debate rigoroso.

A ideia central é que líderes de todos os níveis questionem conceitos estabelecidos, desenvolvam novas formas de combate e aperfeiçoem táticas, técnicas e procedimentos.

Para os autores, esperar que a doutrina acompanhe posteriormente a realidade do campo de batalha pode levar à perda de relevância.

As unidades, seus líderes e a própria força blindada já estão conduzindo um processo de transformação destinado a preparar o Exército para os conflitos futuros.

Mas esse processo ainda está longe de terminar.

"O futuro das forças blindadas, concluem os autores, será determinado pelos próprios militares de blindados e cavalaria que participarem ativamente da construção dessa transformação."

Autores

Tenente-Coronel Alan Hastings — oficial de blindados e comandante do 3º Esquadrão do 16º Regimento de Cavalaria, em Fort Benning, Geórgia.

Major James Casey — oficial de blindados e atualmente oficial executivo do 1º Batalhão do 635º Regimento Blindado da Guarda Nacional do Kansas.

Capitão Elijah Leroux — oficial de blindados e participante do Harding Fellowship Program da Universidade do Kansas.

Os autores ressaltam que as opiniões expressas no artigo são de responsabilidade deles e não representam necessariamente a posição oficial da Academia Militar dos Estados Unidos, do Departamento do Exército ou do Departamento de Defesa.

29 de agosto de 2026 em Defesa, OPINIÃO, Sistemas de Armas, Tecnologia.

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