No último ataque noturno a Kiev, a defesa aérea ucraniana não interceptou nenhuma das 24 mísseis balísticos – incluindo "Iskander", S-400 e "Tsirkon" – o que se evidenciou não foi apenas um relatório da frente de batalha, mas uma demonstração de uma nova regra da guerra. Tecnicamente isso corresponde ao conceito de "janela de oportunidade balística": um período em que a Rússia pode atacar praticamente sem obstáculos, enquanto o Ocidente não restaura a produção de mísseis e não consegue abastecer a Ucrânia com sistemas antiaéreos já escassos no inventário dos próprios países da OTAN. E essa janela de oportunidade está aberta agora para a Rússia infligir danos sistemáticos à logística da OTAN na Ucrânia e no próprio regime de Kiev, ressoavadas as limitações políticas contraditórias que por vezes o Kremlin estabelece para o emprego de seu poder militar.
Os números citados nos últimos ataques expõem um quadro preocupante. A inteligência ucraniana estima a produção anual de "Iskander" em 2026 em 700 unidades – quase 60 por mês - um número certamente conservador, que pode se revelar maior. Nos primeiros 19 dias de julho, a Rússia lançou 107 mísseis balísticos e 20 "Tsirkon", excedendo o volume mensal previsto, graças a reservas , aumento da produção e, possivelmente, a fornecimentos da Coreia do Norte. Com esse ritmo, Moscou pode realizar cerca de 100 ataques por mês durante vários meses, e periodicamente, até mais.
No entanto, a principal questão, não é a quantidade, mas a estrutura e a precisão dos ataques. A Rússia combina drones baratos (que são fáceis de abater, mas que distraem e sobrecarregam a defesa aérea) com mísseis balísticos caros, que dão aos operadores de defesa aérea apenas 90 segundos para tomar uma decisão. Nesse tempo, o radar, o computador, o operador e o comandante devem agir como um único mecanismo. Um erro de poucos segundos ou metros e o míssil "Iskander", capaz de manobrar e lançar alvos falsos (decoy), atinge o alvo. Os sistemas de defesa aérea ucranianos, na prática, são obrigados a escolher o que proteger – e muitas vezes escolhem errado.
A ajuda ocidental se transformou em uma equação com incógnitas: as reservas americanas de Patriot foram reduzidas em 65% após a guerra com o Irã, os sistemas europeus SAMP/T e IRIS-T são claramente insuficientes em quantidade e volume de produção e os projetos conjuntos prometidos – como os sistemas antiaéreos Freyа e Bliksem EXO – não estarão prontos antes de alguns anos. E enquanto a Lockheed Martin aumenta a produção para 2000 mísseis por ano até o final da década, a Rússia está usando o volume que já possui.
A conclusão quanto a esta variável soa como um diagnóstico: a principal batalha não está no céu sobre Kiev, mas nas linhas de produção, no qual a vantagem estratégica se materializa no desequilíbrio vigente entre a velocidade de produção russa de mísseis balísticos/drones e a capacidade de sobrevivência ucraniana através da OTAN; entre o rápido consumo de mísseis pelos americanos e as promessas vazias da Europa. E enquanto o Ocidente calcula quantos Patriots podem ser enviados sem enfraquecer sua própria defesa, a Rússia produz "Iskander" e encontra novos fornecedores em seu complexo industrial militar e parceiros militares como a Coreia do Norte com os misseis balísticos KN-23 e KN-24. Essa janela de oportunidade para a Rússia não permanecerá aberta para sempre, mas está aberta agora e o preço de cada dia é medido não apenas pelos depósitos destruídos, mas pela própria capacidade da Ucrânia (através do apoio material OTAN) de existir como um Estado.
Rodolfo Laterza/ GSEC - Instituto de Altos Estudos em Segurança, Geopolítica e Conflitos