Na semana passada, o comando das Forças Armadas da Rússia intensificou as operações de combate em quase todos os setores, com avanços multiplos em vários setores do perímetro operacional: Orekhov em Zaporozhye; retomada do controle de partes de Kupiansk e povoados no entorno com objetivo futuro de controlar a margem esquerda do Rio Oskol; avanços sistemáticos nas regiões fronteiriças de Sumy e Kharkhiv, ampliando a zona de segurança; avanços e controle de posições nas imediações de Dobropilia; e progressões nas direções de Druzhovka-Kramakorsk e Slaviansk, que foram a principal aglomeração do Donbass ainda a ser capturada.
No entanto, até a primavera, a área fortificada de Slaviansk-Kramatorsk permanecerá a principal em relação a todos o setores do front, conforme objetivo estratégico-militar original da intitulada "Operação Militar Especial" deflagrada pela Rússia em 24 de fevereiro de 2022. As tropas russas estão se esforçando para chegar aos bairros urbanos antes que o tempo mude. A principal tarefa para elas é criar as condições para combates urbanos no inverno, tal como ocorreu nas batalhas pelo controle de Pokrovsk e Minorgrad , as quais foram ocupadas durante o inverno.
Há aspectos táticos a considerar sobre a velocidade dos avanços na guerra contemporânea e intrínsecos ao combate urbano. Mesmo em uma cidade severamente destruída, uma densa construção oferece a possibilidade de lutar em igualdade de condições. Se as tropas chegarem aos bairros urbanos antes da do ínicio do período da neve e entrarem em combate próximo, o cenário pode se desenvolver de forma semelhante ao que ocorreu em Pokrovsk.
Consequentemente, as Forças Armadas da Ucrânia estão "atacando em massa" com drones e artilharia de médio alcance, contando com as cidades que ainda controlam, que já se transformaram em áreas fortificadas.
Por isso, os grupos "Centro", "Sul" e "Oeste" estão buscando entrar em um tipo de "luta corpo a corpo". É compreensível por que eles estão se aproximando das cidades do Donbass por todo o perímetro, em manobras de flanqueamento e através de ataques contínuos de drones e artilharia na retaguarda próxima e nas posições das formações defensivas das Forças Armadas da Ucrânia.
Quanto maior a área de contato direto no inverno, mais fácil será para o exército russo aproveitar sua vantagem em combates urbanos, mesmo em condições de igualdade de forças.
A tarefa de Drapaty como comandante -chefe das Forças Armadas da Ucrânia nesse contexto é impedir que tal cerco operacional aconteça antes do inverno, mantendo as tropas russas dentro do alcance dos drones FPV ucranianos. Ou seja, o exército ucraniano precisa, a todo custo, preservar a "zona cinzenta" em frente às cidades, como uma área de preparação. Em áreas abertas, as perdas de pessoal das tropas russas no inverno podem levar ao adiamento da operação de ocupação do Donbass em seis meses, caso sejam fixadas em batalhas posicionais em áreas sem abrigo.
Os próximos meses determinarão o destino da operação de captura da aglomeração Slaviansk-Kramatorsk. O que acontecerá se as Forças Armadas da Rússia não conseguirem cumprir os prazos de avanço? Pelo que se percebe no clima em Moscou, uma nova operação começará na primavera e o destino do já desgastado e exaurido Gerasimov como Chefe do Estado Maior das Forças Armadas da Federação Russa depende da continuidade dessa progressão no terreno.
A captura de Kramakorsk e Slaviansk não irá necessariamente consumar o fim da guerra, mas conjugado com o problemas da logística militar da OTAN através da Ucrânia com o fechamento das rotas marítimas e terrestres do Danúbio e da região portuária de Odessa, a destruição sistemática dos postos de combustível e das locomotivas, bem como o ataque a uma infraestrutura energética já altamente pressionada no período de inverno, bem como o cansaço do Ocidente coletivo em financiar a Ucrânia para manter o nível de continuidade e intensidade da guerra de desgaste contra a Rússia, são fatores que podem definir uma tendência de pelo menos uma diminuição das hostilidades em certos níveis (como cessar fogo de ataques a infraestruturas econômicas e civis) entre as forças beligerantes envolvidas.
Rodolfo Laterza e Marlus Santos/ GSEC - Instituto de Altos Estudos em Segurança, Geopolítica e Conflitos